Poema de abertura de "Tempo de dentro" (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2017, publicado em março de 2018 pela Biblioteca Pública do Paraná).
EPIFANIA NA COZINHA
Por algum motivo,
que não sei,
ele boia
na água da bacia
sobre o meu colo.
É o único que boia
ao lado de cascas,
restolhos.
Num poema,
eu o jogaria fora
como as palavras
que boiam.
E elas sempre boiam.
Mas não estou
escrevendo
um poema (embora, há
pouco,
desejasse deixar a
cozinha, jogar
para longe bacia, água,
feijão, relógio
e atender ao chamado
que desde sempre
me abrasa).
Devagar, com as pontas
dos dedos indicador e
polegar,
toco a fria superfície
da água
e o recolho.
Com os olhos acaricio
seu corpo, e então
o engulo.
Numa quarta-feira,
às onze da manhã,
em meio ao prosaico,
descubro:
também eu,
ao nascer,
fiquei à deriva,
restolho
boiando
até ser acolhida
como esse feijão que
acabou
brotando, escrevendo,
ele mesmo,
uma espécie de poema
e se fez, no escuro
da memória,
um clarão.
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(Com Marcelo Degrazia, vencedor na categoria "contos" e Henrique Schneider, vencedor na categoria "romance") |
Link para entrevista no Jornal Cândido: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1417
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