Apresentação de André Seffrin:
Entre 260 concorrentes ao prêmio,
o júri foi unânime em considerar Fios um
livro de qualidades acima da média e com força suficiente para se destacar no
panorama atual de nossa poesia.
Elaborado em seis anos de
trabalho, entre 2008 e 2014, este livro revela uma poeta no pleno domínio da
sua oficina, consciente no enfrentamento do ofício e seus insistentes desafios.
Segundo sua própria sugestão, são os “fios do ofício” de uma poesia tão nova e
tão antiga em seus propósitos, muito bem situada semanticamente em seus
circuitos, entranhada no conflito do seu íntimo ruminar.
Estrategicamente ancorado na
memória (“Resgate”, Varal”), frente ao trágico transe de viver (“Constatação”,
“Roto caminho”), a poeta se movimenta em espaços paralelos ou labirínticos
(“Novelo”, “Tentativas”, “Duplo cozinhar”), e a seu modo é pouco acomodada a
fórmulas. Sua angústia seca se propõe “sempre de partida / sem chegada”, onde
poesia é desconforto e jogo de epifanias intencionalmente trincadas. Já o poema
de abertura prenuncia um andamento que em seguida é pontuado por versos e
ideias recorrentes, moto-contínuo evidente também nos títulos dos poemas,
entretecidos em “fios de um sonho”.
Como um ator que abandonasse o
palco-labirinto de si mesmo sem o providencial fio de Ariadne, a poeta nunca se
sente em casa, nem no espaço da representação: ”... só se pudesse/
encenar-encarnar Teseu/ e o real deixasse/ de ser labirinto// para tornar-se
caminho”. Porque nesta “fria antecâmara do real”, tudo começa e termina nas
frestas do discurso, onde eventualmente podem as ideias e as palavras se
arrastarem sem sossego no inefável do silêncio. A ânsia de “tocar a superfície
do real”, lugar “onde pudesse estar/ sabendo-se terra viva” é tão fugaz quanto
o gozo fraturado dos instantes, “voo à procura de outro/ céu para o pouso”.
O tom às vezes enganosamente
prosaico de alguns poemas se intensifica ainda mais na segunda seção (“arte”),
em diálogos com o cinema, a música, as artes plásticas e, ainda e sempre, com a
poesia de outros poetas. Num “céu do pensamento” a poeta pulsa junto aos
móbiles de Calder, aos “fios e traços exatos” de Francis Ponge, aos “escombros
de vidro e veludo” de Mahler, às “vidas de sólida escuridão” de Goeldi, às
flores de pedra de Gabriel Joaquim dos Santos. Ali onde a solidão é comum,
nessa convergente “artéria da melancolia” que é a arte.
Uma linguagem de “pétalas
impossíveis num pântano de arame farpado e raízes”, de “labirintos por entre as
vigas da palavra”. E a dedicatória – “para Donizete Galvão, em memória" –
ilumina certas poéticas circunvizinhas, uma vasta “família espiritual” da
poesia brasileira moderna e suas heranças catalisadoras. Como no poema final,
entre tantos outros pontos altos deste livro singular.

(Jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná)
Vídeo da premiação em Curitiba, Biblioteca Pública, em dezembro de 2014.
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Semifinalista do Prêmio Oceanos (divulgação site Revista Veja):
Substituto do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, o Oceanos anunciou nesta quinta-feira os 63 semifinalistas de sua primeira edição. Pelo regulamento, os inscritos concorrem entre si independentemente do gênero. Entre os selecionados, O Irmão Alemão, livro de Chico Buarque já vencedor do Prêmio APCA; Minha Vida Sem Banho, que rendeu a Bernardo Ajzenberg o Casa de Las Américas, e Fios, coletânea de poemas de Sônia Barros ganhadora do Prêmio Paraná de Literatura. Também disputam o prêmio Cristovão Tezza com O Professor, Luiz Ruffato com Flores Artificiais e o historiador Boris Fausto com O Brilho do Bronze: Um Diário.